Cristiano Coelho do Nascimento


Em 25 de agosto de 2025 às 14:00h, o aluno de doutorado do programa de pós-graduação em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente do Instituto de Pesquisas Ambientais IPA – SP, Cristiano Coelho do Nascimento, da área de concentração PAF – Plantas avasculares, fungos e algas em análises ambientais, defendeu sua tese intitulada “Cogumelos comestíveis da Mata Atlântica: taxonomia integrativa, estudos etnomicológicos e viabilidade de cultivo”, através de videoconferência. A sessão pública foi aberta pelo Prof. Dr. Nelson Menolli Junior (IFSP), na qualidade de Orientador e Presidente da Comissão Julgadora, e os membros da Banca examinadora foram os professores doutores: Eustáquio Souza Dias (UFLA), Maria Alice Neves (UFSC) e Vagner Gularte Cortez (UFPR).


Os resultados da tese contribuem significativamente para o avanço do conhecimento científico sobre a diversidade, o uso tradicional e o potencial de cultivo de cogumelos comestíveis silvestres da Mata Atlântica brasileira. O estudo integrou abordagens taxonômicas, filogenéticas, etnomicológicas, nutricionais e de cultivo, com ênfase nos gêneros Macrocybe, Macrolepiota, Pseudohydnum e Tuber. Como principais resultados, foram descritas novas espécies e variedades de Macrolepiota, além da revisão morfológica e filogenética de espécies previamente conhecidas, com o registro inédito da comestibilidade para diversos táxons e a caracterização nutricional de espécies com elevado teor de proteínas, fibras e minerais. No gênero Pseudohydnum, quatro novas espécies foram descritas, representando os primeiros registros moleculares e morfológicos completos desse grupo na região Neotropical. Para Tuber, foi descrita uma nova espécie e documentados registros inéditos para o Hemisfério Sul e para o Brasil. Adicionalmente, o macrofungo comestível Macrocybe titans foi domesticado e cultivado com sucesso a partir de isolados silvestres da Mata Atlântica, apresentando elevada eficiência biológica e alto valor nutricional dos basidiomas produzidos. Em conjunto, os resultados ampliam o conhecimento sobre a funga comestível neotropical, trazem maior clareza taxonômica para importantes espécies de cogumelos silvestres, registram saberes tradicionais associados ao seu uso e demonstram a viabilidade de cultivo de linhagens nativas de alto valor nutricional, oferecendo subsídios para ações de conservação, segurança alimentar e fortalecimento da fungicultura no Brasil.


Cogumelos comestíveis da Mata Atlântica: taxonomia integrativa, estudos etnomicológicos e viabilidade de cultivo


ABSTRACT

In Brazil, knowledge regarding the diversity and use of wild edible mushrooms has long remained neglected and fragmented, marked by imprecise identifications and the misapplication of names of foreign species to Neotropical taxa. In recent years, however, the adoption of molecular tools and integrative approaches has driven significant advances in the study of these macrofungi. Within this context, and in light of the growing interest in fungal conservation and the search for sustainable food sources, this study aimed to investigate the diversity, traditional knowledge, cultivation potential, and nutritional aspects of wild edible mushrooms from the Brazilian Atlantic Forest, with emphasis on the genera Macrocybe, Macrolepiota, Pseudohydnum, and Tuber. Field collections were conducted mainly in remnants of the Atlantic Forest biome, particularly in the southern and southeastern regions of Brazil, with additional surveys carried out in the Pantanal (Central-West) and in northeastern Atlantic Forest areas. In addition, specimens deposited in national herbaria and fungaria (FIFUNGI, FLOR, ICN, SP, and UFRN-Fungos) were examined. This study resulted in the description of four new species of Macrolepiota (M. abruptibulbosa, M. capelariae, M. chapeletae, and M. pernudae) and two new varieties (M. capelariae var. velana and M. pulchella var. gymnopodia), along with a morphological and phylogenetic revision of three previously known species (M. bonaerensis, M. cyanolamellata, and M. sabulosa). Except for the latter two, the edibility of all mentioned taxa is reported here for the first time. Nutritional analyses of M. bonaerensis, M. capelariae, and M. chapeletae revealed high contents of protein (30.65–35.48 %), fiber (14.34– 15.86 %), potassium (1931.67–2003.33 mg/100 g), and phosphorus (983.33–1383.33 mg/100 g). In Pseudohydnum, four new species (P. brasiliense, P. brunneovelutinum, P. cupulisnymphae, and P. viridimontanum) were described, representing the first comprehensive morphological and molecular documentation of this genus in the Neotropics. In Tuber, one new species (T. bianchettiformis) was described, while two others (T. lyonii and T. brennemanii) are reported for the first time from the Southern Hemisphere, in addition to the first confirmed record of T. maculatum from Brazil. Finally, Macrocybe titans, a large edible macrofungus native to the Neotropics, was successfully domesticated and cultivated from wild isolates collected in the Atlantic Forest. Mycelial growth on PDA was optimal at 25–30 °C, with sorghum grains supporting faster colonization than wheat, indicating greater suitability for spawn production. Cultivation trials using a composted substrate composed mainly of sugarcane bagasse and Brachiaria straw resulted in a biological efficiency of 62.23 % ± 0.10 for isolate MPD643. The cultivated basidiomata exhibited high nutritional value, with notable levels of carbohydrates (52.9 ± 0.04 %), protein (18.33 ± 0.20 %), potassium (31,033 ± 817.9 xiv mg/kg), and phosphorus (11,250 ± 736 mg/kg). In conclusion, this study advances current knowledge of Neotropical edible fungi by providing taxonomic clarification for key wild mushroom species, documenting traditional knowledge, and demonstrating the cultivation potential of native strains with high nutritional value. By integrating multiple approaches, this thesis offers concrete contributions to fungal conservation, food security, and the development of mushroom cultivation in Brazil.

 Keywords: Diversity, Macrolepiota, Ethnomycology, Macrocybe titans, Domestication

RESUMO

No Brasil, o conhecimento sobre a diversidade e o uso de cogumelos comestíveis silvestres permaneceu, por décadas, negligenciado e fragmentado, marcado por identificações imprecisas e atribuição equivocada de nomes de espécies estrangeiras a táxons neotropicais. Nos últimos anos, contudo, a adoção de ferramentas moleculares e abordagens integrativas têm impulsionado avanços significativos no conhecimento desses macrofungos. Inserido nesse contexto, e diante do crescente interesse na conservação da funga e da demanda por fontes alimentares sustentáveis, este trabalho teve como objetivo investigar a diversidade, usos tradicionais a viabilidade de cultivo e os aspectos nutricionais de cogumelos comestíveis silvestres da Mata Atlântica brasileira, com ênfase nos gêneros Macrocybe, Macrolepiota, Pseudohydnum e Tuber. As coletas de espécimes fúngicos contemplaram principalmente fragmentos do referido bioma, com predominância nas regiões Sul e Sudeste, além de incursões pontuais nas regiões Centro-Oeste (Pantanal) e Nordeste (Mata Atlântica). Complementarmente, foram examinados espécimes depositados em herbários e fungários nacionais (FIFUNGI, FLOR, ICN, SP e UFRN-Fungos). Como resultados, para o gênero Macrolepiota foram descritas quatro novas espécies (M. abruptibulbosa, M. capelariae, M. chapeletae, e M. pernudae) e duas novas variedades (M. capelariae var. velana e M. pulchella var. gymnopodia), além da revisão morfológica e filogenética de três espécies previamente conhecidas (M. bonaerensis, M. cyanolamellata e M. sabulosa). Com exceção das duas últimas, a comestibilidade de todas as espécies mencionadas foi documentada pela primeira vez neste estudo, e três delas (M. bonaerensis, M. capelariae, and M. chapeletae) tiveram sua composição nutricional analisada, evidenciando teores expressivos de proteínas (30.65−35.48 %), fibras (14.34−15.86 %), potássio (1931.67−2003.33 mg/100 g), e fósforo (983.33−1383.33 mg/100 g). No gênero Pseudohydnum, foram descritas quatro novas espécies (Pseudohydnum brasiliense, P. brunneovelutinum, P. cupulisnymphae e P. viridimontanum), representando os primeiros registros moleculares e morfológicos completos desse grupo na região Neotropical. No gênero Tuber, foi descrita uma nova espécie (T. bianchettiformis) e documentado o registro inédito de duas espécies para o Hemisfério Sul (T. lyonii e T. brennemanii), além do primeiro registro de T. maculatum para o Brasil. Por fim, Macrocybe titans, um macrofungo comestível de grande porte nativo da região Neotropical, foi domesticado e cultivado com sucesso a partir de isolados silvestres coletados na Mata Atlântica brasileira. O crescimento micelial em meio BDA teve melhores resultados a 25 e 30 °C, sendo o sorgo mais eficiente que o trigo como substrato para produção de inóculo. O cultivo em substrato compostado contendo principalmente bagaço de cana e palha de braquiária resultou em uma eficiência biológica de xii 62.23% ± 0.10 para o isolado MPD643. Os basidiomas cultivados apresentaram alto valor nutricional, com destaque para os teores de carboidratos (52.9 ± 0.04 %), proteínas (1833 ± 0.20 %), potássio (31.033± 817.9 mg/kg), e fósforo (11.250 ± 736 mg/kg) . Em conclusão, os resultados desta pesquisa ampliam o conhecimento sobre a funga comestível neotropical ao trazer clareza taxonômica para importantes espécies de cogumelos comestíveis silvestres, registrar saberes tradicionais, além de demonstrar a viabilidade de cultivo de linhagens nativas de alto valor nutricional. Ao integrar diferentes abordagens, a tese oferece subsídios concretos para ações de conservação, segurança alimentar e fortalecimento da fungicultura no Brasil.

Palavras-Chave: Diversidade, Macrolepiota, Etnomicologia, Macrocybe titans, Domesticação


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Cogumelos comestíveis da Mata Atlântica: taxonomia integrativa, estudos etnomicológicos e viabilidade de cultivo


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