
17/12/2025
Com centenas de registros, o novo acervo do Herbário SPSF facilita identificação de espécies, monitoramento da flora nativa e avanço de estudos sobre conservação vegetal
Por Beatriz Ortiz*
Centenas de imagens inéditas de plantas do Cerrado e da Mata Atlântica paulistas foram disponibilizadas em plataformas digitais abertas ao público por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA). As fotos estão disponíveis no SpeciesLink e no Jabot — dois dos principais sistemas on-line de coleções botânicas do país — além do Catálogo de Plantas das Unidades de Conservação do Brasil, ligado ao Governo Federal.
A coleção reúne imagens de plantas provenientes de diversas Unidades de Conservação do Estado de São Paulo, como o Parque Estadual Campos do Jordão e as Estações Ecológicas de Angatuba, Assis, Avaré, Bananal e Santa Bárbara. As imagens, de plantas vivas e de exsicatas – amostras de plantas desidratadas e prensadas, com informações sobre a coleta –, incluem populações vulneráveis, em perigo de extinção e criticamente em perigo.
Também há registros de espécies em novas localidades, o que amplia a distribuição geográfica conhecida de diversas populações, como Conyza neolaxiflora, coletada no Parque Estadual de Campos do Jordão, que antes somava apenas duas coletas em São Paulo, a mais recente há quase 50 anos. Outro exemplo é Calea grandiflora, encontrada pela primeira vez no Parque Estadual da Serra do Mar e no Morro da Bandeira. Até então, a espécie só havia sido registrada na Reserva Biológica de Paranapiacaba.
Outra novidade da coleção é que ela conta, também, com espécimes de gramíneas da família Poaceae. As gramíneas, apesar de se destacarem entre as de maior número de espécies nas paisagens campestres e terem a função essencial de conservar o solo contra processos erosivos, são pouco coletadas no Brasil. A Assistente Técnica de Pesquisa Científica e Tecnológica do IPA, Regina Tomoko Shirasuna, explica que isso acontece devido ao baixo número de especialistas na família, o que torna a identificação trabalhosa.
“Somente um especialista em gramíneas consegue identificar e coletar uma gramínea. Um taxonomista comum, que trabalha com qualquer outra família que não seja essa, não consegue”, diz ela, que participou da coleta das plantas e é uma das poucas especialistas em gramíneas do Estado de São Paulo. “As gramíneas são uma família muito complexa e, para compreendê-las, são necessárias especializações e muita dedicação”.
Para finalizar, a coleção conta com espécies que ainda não foram identificadas pelos especialistas. Com o novo acervo, pesquisadores de todo o mundo passam a ter acesso imediato às imagens para identificação e comparação de espécies. A ação integra o projeto Biota Campos e o Pró-Espécies, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Os desafios do processo
Para coletar as plantas, os especialistas precisaram realizar uma série de expedições. Estas exigiram longas caminhadas por áreas de difícil acesso, incluindo locais sem trilhas ou com acesso apenas por barco, sob condições climáticas extremas. O apoio da comunidade local e de empresas florestais foi essencial para o sucesso do empreendimento, como conta a Pesquisadora Científica do IPA, Natália Macedo Ivanauskas.
“Para os campos naturais de altitude na Mata Atlântica, o maior desafio foi conseguir chegar em alguns topos de montanha, realizar as coletas e transportar o material, o que envolve preparo físico da equipe disposta a isso”, conta. “Já para os campos do Cerrado, o principal desafio foi encontrar áreas ainda não invadidas por espécies exóticas, já que este é um dos principais problemas para a conservação dessas áreas”.
Depois da coleta das plantas, os pesquisadores colocaram-nas entre camadas de jornal e papelão, um método de prensagem de plantas para fins de preservação. A seguir, elas foram encaminhadas à estufa do Herbário Dom Bento José Pickel (SPSF) para atingirem o nível necessário de secagem antes de serem transformadas em exsicatas. Então, foram tombadas – ou seja, incorporadas à coleção do Herbário, recebendo um número de registro.
Para finalizar, as plantas foram fixadas em papel-cartão por meio de um processo semelhante à costura. Junto, colou-se uma etiqueta com dados da coleta, como nome do coletor, local e data de coleta, características do espécime e identificação científica da planta. “Concluído esse trabalho, temos aquilo que chamamos de exsicata e que ficará arquivada em armários de metal para conservação, prontas para uso em pesquisas”, conta Ivan de Souza Marques.
No IPA, o responsável pela digitalização e disponibilização das exsicatas das plantas campestres é Marques, que utilizou um scanner próprio para a tarefa. “As imagens produzidas pelo scanner têm alta qualidade. Você consegue ampliar bastante para ver os detalhes da planta, como as pequenas estruturas das folhas e das flores. É como se você tivesse um microscópio na mão”, explica. Depois da digitalização, Marques enviou as imagens para as plataformas SpeciesLink e Jabot.
Atualmente, o SPSF conta com aproximadamente 70 mil exsicatas, das quais cerca de 7 mil já foram digitalizadas e disponibilizadas nas plataformas nos últimos anos.
Impactos para ciência e sociedade
A disponibilização das imagens em plataformas abertas reforça o movimento de modernização das coleções biológicas brasileiras e a consolidação de sistemas integrados de informação sobre biodiversidade, como conta Shirasuna. “Antigamente, para ver e tirar dúvidas sobre uma exsicata, era preciso ir presencialmente ao Herbário. Hoje, com a disponibilização das imagens na Internet, temos acesso facilitado a dados que auxiliam no processo de identificação das plantas, trabalho rotineiro para taxonomistas e ecólogos”, conta.
Inclusive, a digitalização é importantíssima para a identificação das plantas, abrindo o espaço para colaborações de especialistas. Ajuda, por exemplo, no caso de duas plantas coletadas e que ainda não foram identificadas. “Estamos disponibilizando todo o acervo para a avaliação pela comunidade acadêmica e temos recebido mensagens de taxonomistas solicitando doação de duplicatas ou empréstimos de materiais, a fim de que possam examiná-los com maior detalhe”, conta Ivanauskas.
Mas, apesar da sua importância, a digitalização não substitui os herbários. “A imagem ajuda muito, mas, dependendo da espécie, é preciso ter a exsicata em mãos para analisar a matéria, para ter certeza da identificação. É preciso ter a planta na mão e analisá-la com a lupa para ver detalhes dela, como tricomas e outras estruturas. Como os herbários têm amostras científicas, eles devem ser preservados sempre”, complementa Shirasuna.
A digitalização dos acervos também é essencial para o monitoramento da flora, a elaboração de planos de manejo e a formulação de políticas públicas — especialmente em áreas pouco estudadas, como os campos naturais do Cerrado. As plantas coletadas em Unidades de Conservação e depositadas em herbários são a base do Catálogo de Plantas das Unidades de Conservação do Brasil, que gerencia informações valiosas para a elaboração dos planos de manejo.
“Em relação aos impactos para a ciência e a sociedade, a nossa intenção é divulgar a flora campestre paulista, ampliando a sua visibilidade e, assim, contribuindo para a conservação dos ecossistemas em que habitam. Esses locais de alta biodiversidade são referências para a restauração daqueles perturbados por diferentes vetores, como invasão biológica, sobrepastejo e turismo inadequado. Devemos evitar que essas plantas sejam extintas, muitas delas com potencial valor alimentar, medicinal ou ornamental”, conclui Ivanauskas.
Atualmente, o IPA conta com dois herbários: o SPSF, localizado na unidade Horto Florestal, considerado a coleção mais representativa das áreas protegidas do estado de São Paulo e referência para a elaboração dos planos de manejo dessas unidades; e o Herbário Maria Eneyda Pacheco Kauffmann Fidalgo (SP), localizado na unidade Jardim Botânico. O SP é o segundo maior herbário do Brasil e o quarto da América do Sul, com acervo de mais de 560 mil amostras.
Imagem de capa: Espécime vivo de Evolvulus riedelii, espécie de planta em perigo de extinção nas paisagens campestres. Imagem: SpeciesLink (SPSF 57804)
*Beatriz Ortiz é Técnica em Meio Ambiente pelo Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), jornalista pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), especialista em Jornalismo Científico e Mestranda em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atua como bolsista de Jornalismo Científico no projeto Biota Campos.
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