
10/05/2024
Foto: Erosão crônica no município paulista de Iguape / Crédito: Daniel França
No dia 3 de maio, a pesquisadora científica Célia de Gouveia Souza, do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), participou do podcast Pesquisa Brasil, realizado pela revista Pesquisa Fapesp em parceria com a Rádio USP. Na ocasião, a geóloga falou sobre a erosão costeira no estado de São Paulo e como esse fenômeno é amplificado não apenas pelas mudanças climáticas, mas também pela execução de obras de contenção inadequadas e medidas que não levam em consideração estudos e conhecimento adquiridos pelas instituições de pesquisa em Geociências.
A erosão marinha já alterou 60% do litoral brasileiro e deve se agravar, visto que as mudanças climáticas tendem a tornar as tempestades mais fortes e as ondas mais altas. No projeto de pesquisa “Sistema de aviso de ressacas e inundações costeiras para o litoral de São Paulo, com foco em impactos das mudanças climáticas” (n° 18/14601-0), coordenado por Célia, foram registrados 279 eventos climáticos severos de 1928 a 2021 no litoral paulista. Entre 1928 e 1999, o número de ressacas com ondas de mais de 2,5 metros de altura aumentou 19%. Nas duas décadas seguintes, esse índice foi de 80%.
Célia explica que a erosão rápida (aguda), que ocorre nesses eventos extremos, é diferente daquela em que a praia vai perdendo areia ao longo do tempo (erosão crônica). “Esses eventos severos, que chamamos de eventos meteorológicos oceanográficos, principalmente na Região Sudeste, têm causas relacionadas com ciclones extratropicais, que aumentam o tamanho das ondas (ondas de tempestade), além de provocarem uma elevação do nível do mar de curto período (marés de tempestade). Os piores eventos são aqueles tanto com ondas muito altas e fortes quanto com o nível do mar subindo bastante. Essas ondas inundam as praias e levam a areia embora. Nos casos mais fortes, onde temos sobre-elevação do nível do mar, a água invade a área urbana, ultrapassando a o limite da praia e avançando sobre ruas, avenidas, casas, garagens de prédios, etc. São dois fenômenos: a erosão costeira (da praia) e a inundação costeira na orla oceânica (da urbanização). Sempre tivemos ressaca, sempre tivemos eventos fortes. No entanto, estamos tendo um aumento desses eventos curtos de ressacas e marés altas e anômalas e o nível do mar subindo, o que acreditamos que seja resultado de mudanças climáticas”, descreve a pesquisadora.
Se uma praia está em erosão costeira crônica, está faltando areia (está entrando menos areia do que deveria ou está saindo mais areia do que deveria). É um balanço negativo. Erosão costeira crônica é um processo de muitos anos, de décadas. Quando uma praia entra nesse processo, acende um alerta para nós. A praia não consegue mais cumprir um de seus papeis mais importantes, que é a proteção física que ela exerce como uma barreira natural contra a ação do mar. Quanto mais estreita for uma praia, quanto menos areia tiver e quanto menos natural ela for, maiores serão os impactos desses eventos severos.
Esse processo está acontecendo em muitas praias. Em São Paulo, podemos citar algumas em processo de erosão muito forte no litoral norte do estado, como a praia de Barra Seca, no município de Ubatuba, e a praia de Massaguaçu, em Caraguatatuba. “Temos um mapa de risco com cinco classes: muito baixo, baixo, médio, alto, muito alto. A maior parte das praias do sul da Baixada Santista está em risco alto e muito alto de erosão. Embora façamos uma classificação geral de cada praia, às vezes uma praia em risco médio tem um setor que está muito erosivo e outro setor que está menos. E isso está relacionado a várias causas, incluindo o avanço da urbanização sobre a praia e a execução de obras de proteção costeira”, relata Célia.
Espigões, muros de contenções, quebra-mares e outros tipos de obras para a proteção de casas e avenidas contra o avanço do mar vem sendo construídos há décadas ao longo costa brasileira e devem se tornar mais necessários nos próximos anos. No entanto, tem sido comum, por falta de planejamento e de estudos consistentes sobre seus prováveis efeitos, que as obras de proteção costeira não funcionem como o desejado para deter a força do mar e muitas vezes precisem ser refeitas ou complementadas com novas medidas.
Recentemente, foi publicada uma matéria na revista Pesquisa Fapesp sobre as obras ditas de proteção costeira, mas que na verdade acabam piorando o estado de erosão. Em Massaguaçu, por exemplo, erosão teve início por volta de 1999 e em 2001 o mar começou a destruir a avenida que passa em frente a essa praia em um trecho de cerca de 100 metros de extensão. Mas o resto estava bem. A partir de então, foram tomadas medidas inadequadas ao longo do tempo que não foram apropriadas para sanar o problema da erosão que estava acontecendo naquele trecho (na parte central da praia). Hoje, temos quase 2 km de erosão. “Tentaram-se tantas obras diferentes que cada uma foi piorando a situação. As intervenções antrópicas em termos de construção de obras rígidas são as piores. Porque não se recupera a praia. Precisamos primeiro tentar recuperar a praia, não recuperar ou proteger a avenida. É preciso olhar pra essa praia, entender seu funcionamento e compreender do que ela está precisando para que seja corrigido esse processo que ao longo de décadas pode se tornar muito pior. Isso mostra a importância de se adotar soluções adequadas para cada praia. Cada trecho de praia precisa de uma ação específica. E isso tem que ser estudado antes que qualquer medida seja tomada. Justamente para não deixar que essa praia entre em estado alto de erosão”, conclui.
O podcast também contou com a participação de convidados de outras instituições abordando temas ambientais, entre eles o geógrafo Davis de Paula, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), que abordou temática complementar à tratada por Célia ao analisar como obras em praias de Fortaleza afetaram cidade vizinha.
Para escutar a entrevista da pesquisadora do IPA, acesse o link: https://revistapesquisa.fapesp.br/celia-de-gouveia-souza/