20/03/2023

 

Módulo de pesquisa que analisa sementes e plântulas é um dos pilares de sustentação para conservação da biodiversidade face a mudanças climáticas, poluição e ações antrópicas

O estudo das condições de germinação de sementes, estabelecimento de plântulas e capacidade de propagação das espécies agrega à ciência um novo olhar sobre as consequências provocadas por ações antrópicas diretas e indiretas em áreas de floresta, assim como o seu ciclo de vida levanta questionamentos necessários às condições de conservação de biomas.

Para os cientistas responsáveis pelo módulo de pesquisa “Análise de sementes e estabelecimentos de plântulas”, Dr. Claudio José Barbedo e Dr. Nelson Augusto dos Santos Junior, a importância de uma investigação minuciosa como esta passa, muitas vezes, despercebida ao cidadão comum, devido a sua singularidade e multidisciplinaridade.

E de que maneira uma pesquisa deste tipo contribui com estudos sobre a conservação da biodiversidade e dialoga com a sociedade?

Este módulo de pesquisa, assim como os demais que integram o projeto “Desafios para conservação da biodiversidade frente a mudanças climáticas, poluição e uso e ocupação do solo” (Proc. FAPESP 2017/50341-0), faz parte de um grande quebra-cabeça, no qual cada peça corresponde a um importante conjunto de dados, experimentos, ferramentas e técnicas de conservação elaboradas ao longo de décadas, senão de séculos.

O objetivo principal deste módulo é o de verificar os impactos causados por ações antrópicas na propagação de espécies em área urbana de Mata Atlântica, no caso, o Parque Estadual Fontes do Ipiranga (PEFI), e estabelecer modelos preditivos, ou seja, previsões baseadas em padrões comparativos, levando em conta a conservação deste e de mais três locais: os Parques Estaduais da Serra da Cantareira e da Serra do Mar, e a Reserva Florestal do Morro Grande, todos localizados na região metropolitana da capital paulista.

Como Dr. Claudio Barbedo fez questão de frisar, o ponto de partida para esse estudo teve início nas observações, estudos e no conhecimento gerado por outros cientistas e acumulado há mais de quarenta, cinquenta anos. O cientista também esclarece que ao longo do tempo a base de dados criada e ampliada, por meio da pesquisa, assim como a estrutura existente em institutos de pesquisa sustentam a criação de novas tecnologias e ferramentas necessárias ao apoio da conservação dos ecossistemas, bem como contribuem para a formação de profissionais capacitados, para que possam atuar em quadros preventivos no que se refere à preservação do meio ambiente, em quaisquer esferas da sociedade.

Outro ponto a ser destacado é a multidisciplinaridade do grupo, que conta com pesquisadores das áreas de Fisiologia, Bioquímica, Anatomia, Ecologia, Genética, entre tantas outras áreas. “A massa de trabalho depende tanto desses pesquisadores, como dos alunos em todos os níveis de conhecimento e aprendizado. No nosso módulo, por exemplo, temos pesquisadores de diferentes formações, diferentes unidades,  e cada um deles orienta alunos de iniciação científica; mestrado, doutorado, inclusive no pós-doutorado”, acrescenta Dr. Claudio Barbedo.

Mas por que é tão importante estudar sementes?

Cruciais para a sobrevivência de toda a cadeia nos ecossistemas, as sementes são, desde a antiguidade, fonte de alimento e dão vida às espécies que servem à agricultura, às indústrias química, farmacêutica, cosmética, tecnológica, têxtil, entre tantas outras. Além disso, são responsáveis pela propagação de plantas que dão vida a insetos, animais e outros seres vivos que se encontram na floresta.

É importante compreender também que somente a partir das sementes e mudas é que se mantém vivas espécies nativas de um local. Por exemplo, se houver desaparecimento de uma planta, de uma árvore, numa área que está sendo antropizada, ou seja, em que ações como o desmatamento, poluição ambiental, uso de área de maneira indiscriminada, elevação da temperatura, invasão de animais, entre tantos outros motivos, é necessário armazenar  sementes para um momento de recuperação dessa planta e, consequentemente, da área em que ela se encontrava.

Entretanto, para realizar um mapeamento minucioso das plantas que ali vivem ou viviam, toda investigação conta com pistas valiosas. No caso das sementes, os pesquisadores identificam espécies; classificam os tipos de sementes; observam seu ciclo de vida na natureza; registram comportamentos e padrões que podem levar à sobrevivência; analisam fatores de risco que podem levar ao desaparecimento completo ou parcial de espécies e, a partir da reunião dos dados coletados e de estudos anteriores indicam a consequência do possível desaparecimento de espécies para todo o ecossistema envolvido.

Em seguida, vem a necessidade do armazenamento das sementes. Assim como a tecnologia para estocar sementes de soja, milho, feijão, é bem dotada de recursos e vem sendo adotada há séculos, os bancos de sementes provenientes de pesquisas científicas, conservados em jardins botânicos ao redor do mundo, buscam desenvolver eficácia capaz de armazenar exemplares de espécies nativas por tempo indeterminado, devido à relevância para o meio ambiente. O Kew Gardens, no Reino Unido, por exemplo, possui um dos maiores acervos do mundo, com coleções centenárias nativas, com a intenção de minimizar o risco de extinção de espécies.

Investigando ações antrópicas e suas consequências

Ao estudar sementes de uma determinada espécie, os pesquisadores investigam todo o entorno, o funcionamento do ecossistema em que se encontra aquela planta, ações que podem modificar e extinguir a vegetação de áreas inteiras. Por este motivo, é tão importante direcionar esforços no sentido de compreender a essência do problema, quais interferências funcionam ou não funcionam para preservar um exemplar e de como a aplicação de tais processos podem transformar-se em políticas de prevenção, conservação e recuperação de áreas, como as da Mata Atlântica.

Mensurar o ciclo de vida das sementes, a maneira como ocorre sua propagação e sobrevivência em meio à relação antrópica é um trabalho complexo, que exige a avaliação de fatores diretos e indiretos, como explica o pesquisador Dr. Nelson Augusto dos Santos Junior. Quando se pensa em relação antrópica, há desde a interferência direta, como a supressão de uma área de mata para projetos de edificação, até os efeitos indiretos provocados por essas ações, que passam pela poluição, escassez de chuva, a lixiviação, que não se apresentam de forma imediata, mas que comprometem igualmente a vegetação. “Ao analisarmos aspectos das mudanças do regime hídrico, por exemplo, estamos olhando para o futuro das espécies, que podem reduzir a produção de frutos e sementes, comprometendo toda a cadeia presente em determinada área de floresta.”

Para obter dados e estabelecer parâmetros comparativos que subsidiem a análise, o grupo de pesquisadores promoveu visitas às unidades de conservação que apresentam alta similaridade com o PEFI, porém, com diferentes níveis de antropização, como explica Dr. Nelson Augusto. As incursões feitas aos Parques Estaduais da Serra do Mar; da Cantareira e à Reserva do Morro Grande, resultaram em novas inferências sobre a vulnerabilidade das espécies, em razão do estado de preservação dessas áreas.

A partir da construção deste panorama e análise da massa crítica de informação, foi possível avaliar os ciclos de propagação de sementes ortodoxas e recalcitrantes, desde a formação das plantas, passando pela polinização, o desenvolvimento do fruto, a maturação da semente, até o seu estabelecimento, que corresponde ao período em que ela retorna ao campo e inicia a produção de uma nova planta.

Todo o processo tem sido analisado a partir do nível de antropização predominante em cada local, da resistência a alterações climáticas específicas, além das modificações ocorridas nos tipos de semente analisados. “Com estes dados, objetivamos sedimentar novos conceitos sobre a propagação e preservação de espécies, para contribuir na concepção de novas soluções e tecnologias a médio e longo prazos, enquanto trabalhamos na vanguarda do conhecimento”, explica Dr. Claudio Barbedo.

Ambos pesquisadores, que tiveram oportunidade de atuar em projetos como este há mais de duas décadas, veem nas pesquisas científicas o caminho para formação de profissionais altamente qualificados; a oportunidade de trabalhar em conjunto com outras áreas do conhecimento e formar novos grupos de pesquisa; a criação de um modelo de pesquisa que pode estimular sua reprodução em novos estudos; a ampliação do arcabouço de informações e um novo olhar para as políticas públicas de preservação ambiental.