
29/08/2025
Por Beatriz Ortiz*
Com base em intercâmbio com a Universidade de Coimbra, pesquisa de pós-doutorado investiga a ecologia, a longevidade e as estratégias de adaptação das plantas presentes nos dois ambientes.
A pesquisadora científica Cláudia Fontana, atualmente realizando pesquisa de pós-doutorado no Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), concluiu recentemente uma missão de pesquisa em parceria com a Universidade de Coimbra (UC), em Portugal. Ela realizou, entre março e junho de 2025, um intercâmbio no Laboratório de Dendrocronologia (MedDendro) da UC, buscando estabelecer conexões entre as plantas do Cerrado paulista e as das zonas alpinas da Serra da Estrela, cordilheira situada na região central de Portugal. O objetivo principal foi compreender como se dá a ecologia, a longevidade e a adaptação das plantas em ambientes específicos.
Fontana desenvolve pesquisas na área de dendrocronologia, método científico que analisa os anéis de crescimento das plantas para determinar a idade delas e reconstruir sua história ambiental. Por meio dessa técnica, é possível identificar as condições do ambiente em que as plantas cresceram e detectar se elas enfrentaram eventos como incêndios, pragas, geadas e secas extremas no passado. Em seu projeto atual, Fontana se dedica especificamente à dendrocronologia de ervas perenes, arbustos e subarbustos, que são típicos do Cerrado e que frequentemente escapam ao olhar das pesquisas, devido ao foco predominante nas árvores.
Durante a missão, Fontana conheceu um projeto coordenado pela professora Susana Rodríguez em colaboração com a professora Cristina Nabais, ambas do Centro de Ecologia Funcional da UC, que investiga os impactos do aquecimento global nos ecossistemas alpinos da Serra da Estrela. A iniciativa, conduzida na cidade de Seia, na região central de Portugal, combina a dendrocronologia e a xilogênese – análise do processo de formação da madeira nas plantas – com tecnologias avançadas de monitoramento ambiental automatizado, como dendrômetros eletrônicos, sensores de umidade do solo e estações meteorológicas. A cientista também participou de expedições para a Serra da Estrela.
“O que mais me chamou atenção foi o grau de inovação do projeto conduzido no MedDendro. Espero aplicar, no Brasil, algumas metodologias que aprendi durante a missão e estabelecer colaborações futuras com os colegas de Coimbra”, relata Fontana. Além de aprofundar sua expertise em ecologia, a pesquisadora também compartilhou métodos desenvolvidos no Brasil, estabelecendo uma troca rica e produtiva de conhecimentos com os cientistas portugueses. “A missão de pesquisa representou uma oportunidade única de trocar experiências e ampliar as perspectivas sobre os métodos aplicados para o estudo das plantas pequenas”, aponta.
Aplicação no Brasil
As temperaturas extremas do inverno e as espécies adaptadas a solos pedregosos e frios, típicas dos campos rupestres da Serra da Estrela, contrastam com o calor ressequido dos verões, as gramíneas resistentes ao fogo e as árvores de casca espessa, presentes nos campos naturais do Cerrado paulista. Mas, apesar das diferenças aparentes entre a ecologia das paisagens, os dois ecossistemas apresentam questões ambientais convergentes: ambos enfrentam pressões climáticas severas e demandam estudos que contribuam para sua conservação. “São realidades distintas, mas igualmente ricas em biodiversidade e desafios”, reflete Fontana.
Assim sendo, os aprendizados adquiridos pela cientista durante a missão de pesquisa serão aplicados, no Brasil, ao Biota Campos, projeto temático financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que visa ampliar conhecimentos sobre a biodiversidade dos campos naturais de São Paulo e de estados vizinhos. Um dos esforços do Biota Campos é explorar as características dos anéis de crescimento e a longevidade das plantas pequenas do Cerrado, contribuindo para desvendar aspectos ainda pouco conhecidos dos campos deste bioma.
A pesquisadora do IPA e líder do Biota Campos, Giselda Durigan, explica que um dos grandes desafios do projeto é demonstrar que os campos naturais são ecossistemas antigos e para isso é muito importante determinar a idade de suas plantas. “Se as plantas do Cerrado forem tão longevas quanto as árvores, teremos um argumento a mais para provar que esses campos existem há várias décadas, antes mesmo do desmatamento nas nossas regiões de estudo, desfazendo a crença equivocada de que os campos hoje existentes são resultantes da degradação de florestas”, pontua.
Portanto, a missão de pesquisa realizada por Fontana traz avanços tanto para as pesquisas realizadas em ecossistemas alpinos europeus quanto para os estudos desenvolvidos em biomas brasileiros. Além dos avanços científicos, permitiu à pesquisadora construir pontes entre dois continentes e ampliar suas perspectivas sobre como a ciência pode contribuir para a sustentabilidade. “Essa missão foi uma prova concreta de como a ciência pode transcender fronteiras, conectando pessoas, ideias e biomas em benefício do planeta”, conclui.
A missão de pesquisa foi financiada pelo edital “Fixação de Jovens Doutores” (FJD FAPESP/CNPq 2024/02051-6). Nas palavras de Cristina Nabais, “a missão de pesquisa, desenvolvida por Cláudia Fontana no MedDendro, fortaleceu de forma inequívoca a colaboração técnico-científica entre a Universidade de Coimbra e o IPA do Estado de São Paulo, uma parceria que esperamos manter e aprofundar com futuras colaborações e projetos conjuntos.”
Além da dendrocronologia aplicada a plantas pequenas, outras frentes do Biota Campos são: o mapeamento dos campos paulistas; a caracterização dos solos e da comunidade vegetal dos remanescentes e seus fatores condicionantes; a caracterização da fauna dos campos paulistas; a descrição da dinâmica de transições entre campos e florestas em diferentes regiões; a priorização de espécies, ecossistemas e áreas para a conservação; e o manejo do fogo para conservação e restauração de ecossistemas naturais campestres.
*Beatriz Ortiz é Técnica em Meio Ambiente pelo Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), jornalista pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), especialista em Jornalismo Científico e Mestranda em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atua como bolsista de Jornalismo Científico no projeto Biota Campos.
Notícias relacionadas
- IPA coordena projeto interinstitucional financiado pela Fapesp para conservação da biodiversidade dos campos naturais de São Paulo
- Restauração de Cerrado deve levar em consideração as diferentes fitofisionomias do bioma
- Agência de notícias divulga estudo sobre restauração de Cerrado publicado em revista científica do IPA

