
15/03/2023
Estudo sobre ciclagem de nutrientes expõe áreas e espécies nativas que precisam de preservação no cinturão verde paulista
Detectar o desaparecimento de espécies nativas (sensíveis) e identificar os agentes motivadores dessa mudança equivale a criar um banco de dados histórico, que embasará a formulação de modelos de reconstrução de fragmentos de mata, assim como futuros projetos de reflorestamento em todo o mundo.
Este é um dos propósitos do grupo de pesquisas coordenado pelo biólogo Dr. Eduardo Pereira Cabral Gomes, que atua no Instituto de Botânica, desde 2004, com estudos voltados à ecologia com foco na dinâmica de populações de plantas e acompanhamento de parcelas de espécies permanentes na biota paulistana.
No módulo de pesquisa “Modelagem Preditiva para Conservação da Biodiversidade”, o cientista e seu grupo de estudos analisam os processos de ciclagem dos nutrientes no solo na área do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (PEFI), combinados às informações de mais dezesseis áreas de matas urbanas da região metropolitana de São Paulo. A investigação ocorre em um processo contínuo, que teve início nos anos 1990. Atualmente, o estudo integra o projeto “Desafios para Conservação da Biodiversidade frente a Mudanças Climáticas, Poluição e Uso e Ocupação do Solo” (Proc. FAPESP 2017/50341-0), na região do cinturão verde paulista, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Os esforços de pesquisa estão direcionados para identificar mudanças ocorridas na ciclagem de nutrientes no solo, a partir de alterações climáticas, levando em consideração a interferência de espécies exóticas invasoras, que podem configurar aumento da sensibilidade da comunidade de vegetação nativa, constituindo ameaça à conservação das espécies pioneiras e raras existentes nessas áreas.
Área pesquisada é a maior concentração de Mata Atlântica urbana
Considerado o maior remanescente de área verde da Região Metropolitana de São Paulo, o Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (PEFI) é um dos maiores fragmentos de Mata Atlântica em área urbana sob influência direta de ações antrópicas, ou seja, de perturbações geradas pela ação do homem, como a poluição ambiental, entre outros estressores.
O local chega a abrigar mais de 1,2 mil espécies, entre elas exemplares vulneráveis em risco de extinção (Barros et al., 2002), assim como espécimes de fauna silvestre. Ao longo de seus 476 hectares, o parque reúne as nascentes históricas do Riacho do Ipiranga e uma rede hídrica com vários corpos d’água preservados. A área geográfica pesquisada fornece uma amostra de mata protegida de alta diversidade, como explica Dr. Eduardo, “encontramos várias espécies raras ameaçadas, árvores maduras, espécies exóticas e invasoras”.
Além desses fatores, o PEFI está situado na cidade de São Paulo, que sofre os efeitos do fenômeno climático conhecido como “ilha urbana de calor”, caracterizada pelo aquecimento concentrado, pelo crescimento global desordenado, a impermeabilização do solo pelo asfalto, concreto; o adensamento de prédios; a escassez de vegetação e de corpos d’água no entorno, agravando os efeitos da poluição e os eventos climáticos.
O estudo aponta que, mesmo em decorrência dessas condições, a produção de nutrientes composta por folhas que se renovam e caem das copas das árvores, em sua maioria, chega a dez toneladas/mês. Entretanto, os pesquisadores analisam a qualidade desses nutrientes, indicando quais espécies precisam de proteção e aquelas que necessitam de controle.
Essa apuração só é possível a partir da análise minuciosa da ciclagem de nutrientes e da decomposição das espécies nativas e exóticas, bem como de todo o material que morre no solo, no caso folhas, galhos, sementes, frutos, flores, restos de animais. A partir da coleta do material (biomassa morta), é possível identificar em laboratório os macro e micro nutrientes, verificar a perda de massa seca, a quantidade e a velocidade com que esses nutrientes retornam ao solo, fazendo-os prosperar na sucessão de espécies.
No decorrer deste projeto, entendeu-se a necessidade de agregar informações sobre o processo de retenção e fixação de carbono por esses nutrientes. Assim, todos os resultados sedimentarão importantes indicadores para a gestão de programas de reflorestamento urbano, no que se refere às espécies escolhidas para plantio e processos sucessionais em cada região de mata a ser conservada.
Ainda seguindo essa vertente, a pesquisa traz como ponto de discussão e atenção o aumento da temperatura que, embora seja mais amena dentro do parque em comparação ao registrado em toda a cidade de São Paulo, já acumula, em média, cerca de 3 graus centígrados, nos últimos noventa anos. O registro feito pela estação meteorológica da Universidade de São Paulo (USP), em funcionamento no local desde os anos 1930, corrobora ao aquecimento global, um dos causadores dos desequilíbrios observados em todo o planeta, como o aumento de períodos de concentração e aumento do volume das chuvas em até 50%; a morte de espécies que não se adaptam ao calor excessivo e às secas.
Toda a apuração realizada também contribui de maneira substancial à atualização da lista de espécies ao detectar, registrar, analisar e compartilhar informações e parâmetros sistematizados que enriquecem os bancos de dados a níveis estadual, nacional e global, possibilitando a ampliação do arcabouço disponível para novas pesquisas acadêmicas; para elaboração de políticas públicas relacionadas a normas de restauração e preservação de ecossistemas; controle e erradicação de espécies, entre tantas outras ações dos setores público e privado em todo o mundo.
