Durante o período Quaternário ocorreram formidáveis mudanças ambientais na superfície terrestre que deixaram inúmeras evidencias paleoclimáticas. Ocorreram transgressões e regressões marinhas, acompanhadas de progradações e retrogradações da linha de costa, assim como a intensificação de períodos úmidos e secos que mudaram padrões de chuvas e de sedimentação nos continentes. Há cerca de 11500 anos, no final do Último Máximo Glacial (LGM) as temperaturas mundiais começaram a subir até os dias atuais, afetando diretamente o clima, a vegetação e o nível relativo do mar, com oscilações globais, regionais e locais. As temperaturas globais começaram a aumentar e se formaram extensos lagos de água doce, como resultado do derretimento de grandes geleiras que havia na América do Norte. Na borda leste da América do Norte, havia dois lagos glaciais na região da Baía Hudson, suportados por uma represa natural. Em torno de 8.200 anos atrás a represa se rompeu e gerou um enorme aporte de água doce para o oceano. A água doce diluiu a água salgada, densa e fria do mar. A água do mar se tornou mais doce e mais leve, causando uma anormalidade de salinidade no Atlântico Norte, que transformou a circulação termoalina mundial. Esse acontecimento teve um grande impacto climático, com rebaixamento da temperatura terrestre principalmente no Hemisfério Norte. Em questão de pouco tempo, as condições climáticas mudaram rapidamente, e este período ficou conhecido como “evento 8.2 ka” (8.2 ka event). Este evento foi reconhecido pela primeira vez em testemunhos de gelo da Groenlândia, onde se verificou registros de menor temperatura e de acúmulo de neve por mais de duzentos anos. Em bolhas de ar dentro dos testemunhos de gelo, há uma queda de 10-15% do metano nesse período correlacionada a diminuição da área de cobertura das florestas tropicais úmidas – provocada por um clima mais seco. Há evidências de que o evento 8.2 ka causou uma queda de cerca de 2°C na temperaturas da Europa, mudanças significativas no nível do mar na Noruega, condições extremamente secas na borda sudeste do Sahara e avanços glaciais na Nova Zelândia. Regiões intensamente povoadas na Europa (entre a Espanha e a Grécia) e no Oriente Médio foram abandonadas abruptamente devido à diminuição da temperatura, com migração para ambientes mais favoráveis que conduziram a introdução da agricultura no sudeste da Europa. Para tentar entender de que forma essas mudanças afetam a nossa própria sobrevivência, pesquisadores do IG, da Universidade Guarulhos (UnG) e do Instituto de Geociências (USP) encontraram evidências de mudanças na América do Sul decorrentes do resfriamento do Atlântico Norte durante o evento 8.2 ka. No Brasil, foram encontradas evidências de mudanças climáticas e no nível do mar nos últimos 9400 anos na Juréia (SP), uma das principais áreas de proteção de ecossistemas do Atlântico Sul. Os resultados incluem mudanças cíclicas e graduais de diferentes intensidades e freqüências ao longo do registro geológico, que foram controladas por fenômenos astronômicos, geofísicos e geológicos. Estas variações não foram geradas por uma única causa, mas seu resultado é uma interação de diversos fatores de diferentes escalas. Evidências geoquímicas foram utilizadas para identificar anomalias, correlacionadas a ciclos climáticos e de transgressões e regressões marinhas e eventos de longa e curta duração que geraram altas taxas de sedimentação, principalmente de sedimentos entre 8.385 e 8.375 anos atrás. Os resultados sugerem que um evento moderno de curta duração no Atlântico Norte, como o evento 8.2 ka, poderia afetar o equilíbrio ambiental na América do Sul e intensificar a Monção de Verão Sul-Americana (SASM). A comprovação de que as mudanças ambientais enfrentadas no Hemisfério Norte podem ser correlacionadas com respostas ambientais no Hemisfério Sul é muito importante, uma vez que estamos na eminência mundial de debates e decisões governamentais sobre mudanças climáticas identificadas atualmente, suportando importantes conclusões sobre a complexidade da interação de diversos fatores ambientais que afetam a Terra de diversas formas. O projeto de pesquisa teve apoio financeiro da FAPESP e do CNPq.

Fonte: Sallun, A. E.M., Sallun Filho, W., Suguio, K., Babinski, M., Gioia, S. M.C.L., Harlow, B. A., Duleba, W., De Oliveira, P. E., Garcia, M. J., Weber, C. Z., Christofoletti, S. R., Santos, C. da S., Medeiros, V. B. de, Silva, J. B., Santiago-Hussein, M. C., Fernandes, R. S. 2011. Geochemical evidence of the 8.2ka event and other Holocene environmental changes recorded in paleolagoon sediments, southeastern Brazil. Quaternary Research, doi:10.1016/j.yqres.2011.09.007.

Disponível em http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0033589411001189.