{"id":3114,"date":"2013-05-21T09:57:29","date_gmt":"2013-05-21T12:57:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/?p=3114"},"modified":"2014-05-21T10:39:42","modified_gmt":"2014-05-21T13:39:42","slug":"a-redescoberta-de-uma-floresta-construcao-de-rodoanel-motiva-expedicoes-cientificas-a-serra-da-cantareira-na-grande-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/2013\/05\/a-redescoberta-de-uma-floresta-construcao-de-rodoanel-motiva-expedicoes-cientificas-a-serra-da-cantareira-na-grande-sao-paulo\/","title":{"rendered":"A redescoberta de uma floresta &#8211; constru\u00e7\u00e3o de rodoanel motiva expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas \u00e0 serra da Cantareira, na Grande S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<div class=\"wc-gallery\"><div id='gallery-1' data-gutter-width='5' data-columns='1' class='gallery wc-gallery-captions-onhover gallery-link-file gallery-masonry galleryid-3114 gallery-columns-1 gallery-size-thumbnail wc-gallery-bottomspace-default wc-gallery-clear'><div class='gallery-item gallery-item-position-1 gallery-item-attachment-3116'>\n\t\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-1.jpg' title='O in\u00edcio de uma estrada: a vegeta\u00e7\u00e3o nativa a ser removida em um dos canteiros de obra do trecho norte do rodoanel' target='_self'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-1-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t\t<\/div><\/div><div class='gallery-item gallery-item-position-2 gallery-item-attachment-3115'>\n\t\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-600x633.jpg' title='\u00c1reas priorit\u00e1rias para pesquisa no Parque da Cantareira' target='_self'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t\t<\/div><\/div><div class='gallery-item gallery-item-position-3 gallery-item-attachment-3117'>\n\t\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-3.jpg' title='A cidade e a serra: o N\u00facleo Cabu\u00e7u e o cont\u00ednuo de florestas protegidas pelo parque' target='_self'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-3-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t\t<\/div><\/div><div class='gallery-item gallery-item-position-4 gallery-item-attachment-3118'>\n\t\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-4.jpg' title='Plantas coletadas em Guarulhos em fase de identifica\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica' target='_self'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-4-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" decoding=\"async\" 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href='https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-9.jpg' title='Perereca de uma das \u00e1reas da futura estrada' target='_self'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-9-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t\t<\/div><\/div><div class='gallery-item gallery-item-position-7 gallery-item-attachment-3120'>\n\t\t\t\t<div class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-8-198x300.jpg' title='Brom\u00e9lias e orqu\u00eddeas coletadas e mantidas em viveiros' target='_self'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-8-198x300-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t\t<\/div><\/div><div class='gallery-item gallery-item-position-8 gallery-item-attachment-3122'>\n\t\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-11.jpg' title='Uma das estradas que cortam a serra' target='_self'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/05\/052-057_Cantareira_207-11-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t\t<\/div><\/div><\/div>\n<\/div>\n<p>No in\u00edcio de fevereiro, em uma das expedi\u00e7\u00f5es semanais dos pesquisadores do Instituto de Bot\u00e2nica \u00e0s \u00e1reas a serem cortadas pelo trecho norte do rodoanel \u2013 a estrada de 180 quil\u00f4metros (km) de extens\u00e3o em fase final de constru\u00e7\u00e3o em torno da Grande S\u00e3o Paulo \u2013, a bot\u00e2nica C\u00edntia Kameyama reconhece e colhe esp\u00e9cies de plantas provavelmente raras do cerrado que crescem em um campo ao lado de um s\u00edtio a seis quil\u00f4metros do aeroporto de Guarulhos. \u201cA estrada vai passar aqui e esta \u00e1rea de mata vai desaparecer\u201d, ela comenta, enquanto separa as plantas colhidas. \u201cO \u00faltimo t\u00fanel do rodoanel come\u00e7a ali\u201d, diz o bot\u00e2nico Paulo Ortiz, apontando para um morro coberto de \u00e1rvores, entre as quais se destacam as flores coloridas das quaresmeiras. Logo depois Regina Shirasuna volta de uma caminhada a um aglomerado de \u00e1rvores carregando uma p\u00e1 e v\u00e1rios sacos que escondem apenas a raiz das plantas que ela colheu: \u201cVou replantar ainda hoje\u201d. Em seis meses de trabalho, as equipes de resgate tinham recolhido cerca de 200 plantas e as levado para serem cultivadas no instituto. Das 20 \u00e1reas visitadas, algumas eram usadas para desova de cad\u00e1veres ou encontros de grupos religiosos, que se reuniam em clareiras da mata para cantar alto e, quando os pesquisadores passavam, cumprimentavam com um \u201cpaz, irm\u00e3o!\u201d.<\/p>\n<p>O trabalho de campo se intensificou em abril, quando outros grupos de bot\u00e2nicos come\u00e7aram a resgatar brom\u00e9lias e outras plantas raras penduradas nas \u00e1rvores das matas a serem suprimidas nas bordas da serra da Cantareira, a maior floresta urbana do pa\u00eds, com 30 km de extens\u00e3o, em boa parte j\u00e1 ocupada por bairros populares e condom\u00ednios luxuosos, na zona norte de S\u00e3o Paulo e em munic\u00edpios vizinhos. Ao mesmo tempo, bi\u00f3logos e veterin\u00e1rios entraram na mata para cortar a vegeta\u00e7\u00e3o mais baixa e fazer muito barulho para resgatar filhotes e espantar para o alto da serra os que pudessem fugir. Eles trabalhavam com pressa: logo chegariam os tratores para remover a vegeta\u00e7\u00e3o nativa das \u00e1reas que ser\u00e3o tomadas pelas pistas do trecho norte do rodoanel, que ter\u00e1 44 km de extens\u00e3o, boa parte em Guarulhos. Em tr\u00eas anos, quando estiver pronto, esse trecho completar\u00e1 o anel vi\u00e1rio que deve desviar os caminh\u00f5es que chegam de outras regi\u00f5es do pa\u00eds e hoje t\u00eam de passar pelas avenidas marginais, dificultando o tr\u00e2nsito dos moradores da Grande S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia das exig\u00eancias ambientais, impens\u00e1veis at\u00e9 h\u00e1 poucas d\u00e9cadas, quando as rodovias se impunham sem questionamentos sobre as florestas do pa\u00eds, provavelmente nunca antes uma estrada foi constru\u00edda com tantos cuidados \u2013 at\u00e9 os engenheiros tiveram de abdicar da autonomia e trabalhar com pesquisadores dos institutos de Bot\u00e2nica e Florestal. Para complicar, a estrada teria de passar por bairros densamente povoados de S\u00e3o Paulo e Guarulhos e pr\u00f3xima ao Parque Estadual da Cantareira, uma \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o de remanescentes de mata atl\u00e2ntica. Com 80 km2, o parque abrange quatro munic\u00edpios \u2013 S\u00e3o Paulo, Mairipor\u00e3, Caieiras e Guarulhos \u2013 e abriga 25% da \u00e1rea original e pelo menos 60% da cobertura vegetal da serra, al\u00e9m de proteger as nascentes que fornecem \u00e1gua para os moradores da metr\u00f3pole desde o final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Desde que come\u00e7ou a ser planejado, h\u00e1 10 anos, o tra\u00e7ado do trecho norte passou por transforma\u00e7\u00f5es radicais para reduzir os impactos ambientais \u2013 uma das propostas era passar ao norte da serra da Cantareira, n\u00e3o ao sul, como no trajeto aprovado. \u201cExaminamos dezenas de possibilidades de tra\u00e7ado, em intera\u00e7\u00e3o com as prefeituras e as secretarias de meio ambiente dos munic\u00edpios a serem atingidos\u201d, diz Carlos Henrique Aranha, diretor da Prime Engenharia, empresa de gerenciamento ambiental contratada pela Desenvolvimento Rodovi\u00e1rio S.A. (Dersa), empresa p\u00fablica respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o do trecho norte.<\/p>\n<p>O tra\u00e7ado final \u00e9 o resultado de muitas negocia\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 entre \u00f3rg\u00e3os do governo. Os protestos e as press\u00f5es dos moradores da regi\u00e3o norte da capital e dos munic\u00edpios a serem atingidos pelas obras resultaram em v\u00e1rios ajustes: a estrada desvia de um campo de t\u00eanis, de uma caixa-d\u2019\u00e1gua que havia sido rec\u00e9m-constru\u00edda quando foi anunciada, de um condom\u00ednio de luxo e de uma paineira com 15 metros de altura repleta de brom\u00e9lias. Mas vai ocupar o terreno da escola em uma avenida de terra na periferia de Guarulhos, que dever\u00e1 ser refeita em outro lugar. Ningu\u00e9m diz que o tra\u00e7ado da estrada \u2013 constru\u00edda a um custo estimado em R$ 6,5 bilh\u00f5es \u2013 \u00e9 perfeito, mas \u201co de 10 anos atr\u00e1s era mais impactante\u201d, diz Geraldo Franco, pesquisador do Instituto Florestal. \u201cA obra j\u00e1 foi bloqueada por causa da oposi\u00e7\u00e3o de ONGs e \u00f3rg\u00e3os ambientais do governo que analisaram os relat\u00f3rios de impacto principalmente sobre a serra da Cantareira\u201d, ele relata. A estrada que come\u00e7ou a ser constru\u00edda vai cortar o parque por meio de t\u00faneis.<\/p>\n<p><strong>Repor o que cortar<\/strong><\/p>\n<p>Para reduzir o impacto da obra, a regra \u00e9 simples: repor o que tiver de ser removido. A Dersa anunciou que garantir\u00e1 uma indeniza\u00e7\u00e3o ou uma casa nova \u00e0s 3.490 fam\u00edlias atingidas pela obra. H\u00e1 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m com a fauna \u2013 incluindo cerca de mil c\u00e3es e 800 gatos mantidos pelos moradores \u2013 e com a flora. \u201cPossivelmente teremos menos resgates que no trecho sul, porque os animais ter\u00e3o para onde fugir\u201d, disse o veterin\u00e1rio Pl\u00ednio Aiub, coordenador do grupo de empresas respons\u00e1veis pelo afugentamento e resgate de fauna, em uma reuni\u00e3o de planejamento realizada no in\u00edcio de fevereiro na Dersa.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o por onde a estrada vai passar, de acordo com invent\u00e1rios anteriores, vivem 234 esp\u00e9cies de aves, 49 de r\u00e9pteis e 65 de mam\u00edferos \u2013 incluindo bugios, pregui\u00e7as, veados, gamb\u00e1s e ouri\u00e7os. Cogita-se a constru\u00e7\u00e3o de t\u00faneis e corredores com cordas entre \u00e1rvores nas estradas que cortam a serra para evitar atropelamentos e facilitar a passagem de animais. \u201cSe vai funcionar? S\u00f3 testando para saber\u201d, diz o ec\u00f3logo M\u00e1rcio Port-Carvalho, do Instituto Florestal.<\/p>\n<p>A vegeta\u00e7\u00e3o nativa que tiver de ser cortada ter\u00e1 de ser reposta: \u00e9 o reflorestamento compensat\u00f3rio, como j\u00e1 foi feito no trecho sul, inaugurado em 2010, e deve ser adotado tamb\u00e9m no trecho leste, j\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o. Em 2007, como condi\u00e7\u00e3o para a aprova\u00e7\u00e3o do projeto de constru\u00e7\u00e3o do trecho sul, \u00f3rg\u00e3os ambientais estaduais e federais determinaram que a Dersa replantasse 1.016 hectares de florestas (cada hectare equivale a 10 mil metros quadrados), em \u00e1reas pr\u00f3ximas \u00e0 futura rodovia, para compensar a perda de 200 hectares de mata atl\u00e2ntica que cerca a Grande S\u00e3o Paulo. At\u00e9 janeiro de 2012, em um ter\u00e7o das 147 \u00e1reas plantadas, a maioria das \u00e1rvores tinha morrido ou n\u00e3o tinha crescido como se esperava, por causa de alagamentos, inc\u00eandios provocados, geadas, invas\u00e3o de gado e oposi\u00e7\u00e3o de moradores vizinhos (<em>ver<\/em>\u00a0Pesquisa Fapesp\u00a0<em>n\u00ba 191<\/em>).<\/p>\n<p>Agora se prev\u00ea a reposi\u00e7\u00e3o de cerca de mil hectares, em \u00e1reas pr\u00f3ximas que ainda est\u00e3o sendo identificadas. Um problema para o qual os especialistas ainda n\u00e3o encontraram solu\u00e7\u00e3o \u00e9 como repor as \u00e1reas de cerrado inesperadamente identificadas nos munic\u00edpios de Guarulhos e Aruj\u00e1, agora consideradas preciosas por representarem um tipo de vegeta\u00e7\u00e3o eliminada com o crescimento das cidades e com obras como o aeroporto de Guarulhos. Planeja-se reaproveitar o solo que tiver de ser retirado nas novas \u00e1reas, mas n\u00e3o h\u00e1 garantia de que essa estrat\u00e9gia funcione, porque at\u00e9 hoje bi\u00f3logos, agr\u00f4nomos e engenheiros florestais n\u00e3o conseguiram manter de modo satisfat\u00f3rio as plantas do cerrado fora das \u00e1reas em que crescem naturalmente. \u201cOs estudos sobre a produ\u00e7\u00e3o de mudas de esp\u00e9cies do cerrado ainda s\u00e3o incipientes\u201d, lembra Franco.<\/p>\n<p>A movimenta\u00e7\u00e3o de homens e m\u00e1quinas envolvidos com a constru\u00e7\u00e3o do trecho norte est\u00e1 aumentando a visibilidade da serra coberta de mata atl\u00e2ntica, que ajuda os moradores de S\u00e3o Paulo a se orientarem geograficamente, mas ainda \u00e9 pouco conhecida. A cada ano, 90 mil moradores da cidade visitam o Parque da Cantareira (aberto apenas nos finais de semana), a 20 km do centro da cidade, de onde se pode ter uma magn\u00edfica vista da metr\u00f3pole, a mil metros de altitude. N\u00e3o \u00e9 muito se comparado com o Parque do Ibirapuera, que recebe 70 mil pessoas apenas em um s\u00e1bado de sol.<\/p>\n<p>Como os visitantes, os levantamentos sobre os animais e as plantas do Parque da Cantareira n\u00e3o s\u00e3o abundantes. \u201cAinda temos muitas esp\u00e9cies de \u00e1rvores, entre elas duas de cinamomos, para serem descritas\u201d, diz Jo\u00e3o Batista Baitello, bi\u00f3logo do Instituto Florestal. Em 2010, seu colega Frederico Arzolla apresentou 101 esp\u00e9cies de arbustos e \u00e1rvores que crescem em clareiras que haviam sido formadas para a instala\u00e7\u00e3o de torres de transmiss\u00e3o de energia el\u00e9trica e em 2011 outras 179 esp\u00e9cies de \u00e1rvores encontradas em 11 km de trilhas no interior do parque. Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo passado os estudos se concentram nas \u00e1reas mais preservadas do parque, como o Pinheirinho, que Baitello visitou pela primeira vez logo depois de ter sido contratado pelo instituto, em 1976. Seis anos depois, ele e Osny Tadeu de Aguiar apresentaram o primeiro levantamento amplo dessa regi\u00e3o, com 189 esp\u00e9cies de \u00e1rvores, entre elas algumas majestosas como o carvalho-nacional, o guatambu, a canela-preta, o jequitib\u00e1-branco, o pau-terra e o pau-furado, a maior de todas, com at\u00e9 40 metros de altura e 3 de di\u00e2metro. O parque abriga 678 esp\u00e9cies de \u00e1rvores e 866 de animais j\u00e1 descritas, de acordo com o plano de manejo, o mais completo invent\u00e1rio feito at\u00e9 agora. Esse trabalho, que pode ser encontrado no\u00a0<em>site<\/em>\u00a0do Instituto Florestal, apresenta tamb\u00e9m \u00e1reas priorit\u00e1rias que deveriam ser mais estudadas (<em>ver mapa<\/em>).<\/p>\n<p>A diversidade biol\u00f3gica se deve \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de dois tipos distintos de mata atl\u00e2ntica, a ombr\u00f3fila densa montana, encontrada em serras, e a semidecidual, com \u00e1rvores que perdem parte das folhas nas \u00e9pocas mais secas do ano, e \u00e0 diferen\u00e7a de altitude, que varia de 775 a 1.200 metros. Segundo Alexsander Antunes, especialista em aves do Instituto Florestal, a \u00e9poca de frutifica\u00e7\u00e3o de uma mesma esp\u00e9cie pode variar de acordo com a atitude: a palmeira-ju\u00e7ara, por exemplo, frutifica entre abril e junho nas regi\u00f5es mais baixas e no final do ano nas mais altas, desse modo fornecendo frutos para arapongas e sabi\u00e1s ao longo do ano todo.<\/p>\n<p><strong>Uma floresta de hist\u00f3rias<\/strong><\/p>\n<p>A Cantareira est\u00e1 muito ligada \u00e0 hist\u00f3ria da capital paulista. \u201cMuito provavelmente as \u00e1rvores utilizadas para fazer as vigas sobre as paredes de taipa do P\u00e1tio do Col\u00e9gio, constru\u00eddo no s\u00e9culo XVI, vieram da serra da Cantareira\u201d, diz Baitello, que em seguida mostra uma placa de canela-preta com pelo menos 460 anos de idade com que um morador da cidade, Jos\u00e9 Nunes de Vilhena, presenteou dom Bento Jos\u00e9 Pickel, padre beneditino e curador do herb\u00e1rio do ent\u00e3o chamado Servi\u00e7o Florestal, mais tarde Instituto Florestal.<\/p>\n<p>Como os fazendeiros buscavam mais terras para plantar caf\u00e9, ch\u00e1 ou cana-de-a\u00e7\u00facar, o desmatamento na serra cresceu bastante at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX, quando o governo estadual resolveu agir, desapropriando fazendas para proteger as nascentes ou riachos que abasteciam a cidade \u2013 o nome Cantareira, por sinal, vem da palavra c\u00e2ntaro, onde os moradores e viajantes guardavam \u00e1gua. \u201cA conserva\u00e7\u00e3o ambiental no estado de S\u00e3o Paulo come\u00e7ou aqui, antes mesmo do conceito de parque ou reserva\u201d, diz Arzolla. O parque nacional mais antigo do Brasil, o de Itatiaia, foi criado em 1937.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o Florestal em 1911 e da Guarda Florestal um ano depois assegurou a preserva\u00e7\u00e3o da mata e de boa parte dos animais que a habitavam. On\u00e7as-pintadas e catetos n\u00e3o foram mais vistos, em consequ\u00eancia da fragmenta\u00e7\u00e3o da mata e da ca\u00e7a intensiva, mas o parque e as \u00e1reas pr\u00f3ximas abrigam uma das maiores popula\u00e7\u00f5es de bugios (<em>Alouatta clamitans<\/em>) do pa\u00eds. \u201cPor aqui vivem centenas de bugios\u201d, diz Port-Carvalho, que est\u00e1 terminando uma estimativa da popula\u00e7\u00e3o desses animais. Das quatro esp\u00e9cies de primatas nativas encontradas atualmente na serra da Cantareira, a \u00fanica amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o \u00e9 o sagui-da-serra-escuro ou\u00a0<em>Callithrix aurita<\/em>. Uma das maiores amea\u00e7as \u00e9 o cruzamento com outras esp\u00e9cies de saguis que n\u00e3o viviam na serra, como\u00a0<em>Callithrix penicillata<\/em>. \u201cNa semana passada, pela primeira vez, vi um\u00a0<em>C. aurita<\/em>\u00a0andando com um grupo de\u00a0<em>C. penicillata<\/em>\u00a0em uma \u00e1rea cont\u00ednua \u00e0 Cantareira\u201d, relata Port-Carvalho.<\/p>\n<p>\u201cDos parques de mata atl\u00e2ntica, este \u00e9 o mais f\u00e1cil para ver bichos, tanto macacos quanto aves\u201d, diz Antunes, que mora em um condom\u00ednio a dois quil\u00f4metros do parque em cujo jardim vivem bugios, tucanos e 80 esp\u00e9cies de aves. Desde 2005 ele identificou no parque 250 esp\u00e9cies de aves, incluindo algumas que ainda n\u00e3o tinham sido vistas na cidade de S\u00e3o Paulo, como o gavi\u00e3o-de-sobre-branco, o pica-pau-rei e o corocor\u00f3. Macucos, j\u00e1 raros no estado de S\u00e3o Paulo, podem ser vistos pelo parque \u201ccom relativa facilidade\u201d, ele diz. \u201cQuando a gente chega ao alto da serra em um dia \u00famido, com a neblina subindo, pode-se ver pingos amarelos se movendo no solo\u201d, relata Gl\u00e1ucia Cortez, bi\u00f3loga do Instituto Florestal. Os pontos amarelos s\u00e3o os sapinhos-pingos-de-ouro ou\u00a0<em>Brachycephalus nodoterga<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe como as plantas e os animais v\u00e3o reagir \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da floresta, \u00e0s obras e depois \u00e0 estrada. \u201cOs impactos negativos para alguns grupos de animais podem aparecer s\u00f3 depois de muitos anos, por isso \u00e9 importante fazer monitoramentos de longo prazo\u201d, alerta Port-Carvalho. Quem est\u00e1 planejando, abrindo ou acompanhando a nova estrada j\u00e1 est\u00e1 em alerta. \u201cSeremos vigiados o tempo todo\u201d, disse um engenheiro na Dersa. Eles temem que os moradores dos condom\u00ednios pr\u00f3ximos \u00e0 obra fotografem e divulguem pela internet qualquer irregularidade, assim que a virem.<\/p>\n<p>Em meados de abril, Pl\u00ednio Aiub, com sua equipe, j\u00e1 tinha encontrado \u2013 e removido para regi\u00f5es mais seguras da mata \u2013 cobras e aranhas, al\u00e9m de terem visto bandos de macacos-prego que apareciam para espiar. \u201cFomos chamados para resgatar uma cascavel e encontramos uma\u00a0<em>Phyllomedusa<\/em>, um g\u00eanero de perereca que normalmente vive em \u00e1reas baixas e \u00famidas, mas estava em uma regi\u00e3o alta e seca\u201d, diz ele. \u201cNo trecho sul, pegamos animais at\u00e9 o \u00faltimo dia da obra. Eles tendem a voltar para onde estavam antes.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigos cient\u00edficos:<\/strong><\/p>\n<p>ARZOLLA, F.A.R.D.P.\u00a0<em>et al<\/em>. Composi\u00e7\u00e3o flor\u00edstica e a conserva\u00e7\u00e3o de florestas secund\u00e1rias na serra da Cantareira, S\u00e3o Paulo, Brasil.\u00a0<strong>Revista do Instituto Florestal<\/strong>. v. 23, n. 1, p. 149-71, 2011.<br \/>\nBaitello, J.B.; Aguiar, O.T.; Rocha, F.T.; Pastore, J.A.; Esteves, R.. Estrutura fitossociol\u00f3gica da vegeta\u00e7\u00e3o arb\u00f3rea da serra da Cantareira \u2013 N\u00facleo Pinheirinho.<strong>Revista do Instituto Florestal<\/strong>. v. 5, n. 2, p. 133-61, 1993.<br \/>\nLEONEL, C. (Org.). Parque Estadual da Cantareira: Plano de manejo. 1\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Florestal, 2009 (livro eletr\u00f4nico).<\/p>\n<p><strong>Fotos e imagem:<\/strong>\u00a0Eduardo Cesar, Daniel das Neves, Francisco Vilela e Jo\u00e3o Batista Baitello<\/p>\n<p><strong>Texto:<\/strong>\u00a0Carlos Fioravanti<\/p>\n<p><strong>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2013\/05\/14\/a-redescoberta-de-uma-floresta\/\">http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2013\/05\/14\/a-redescoberta-de-uma-floresta<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio de fevereiro, em uma das expedi\u00e7\u00f5es semanais dos pesquisadores do Instituto de Bot\u00e2nica \u00e0s \u00e1reas a serem cortadas pelo trecho norte do rodoanel \u2013 a estrada de 180 quil\u00f4metros (km) de extens\u00e3o em fase final de constru\u00e7\u00e3o em torno da Grande S\u00e3o Paulo \u2013, a bot\u00e2nica C\u00edntia Kameyama reconhece e colhe esp\u00e9cies de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":3116,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3114"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3114"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3114\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7727,"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3114\/revisions\/7727"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/institutoflorestal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}